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#Breviações


EU: Uma coca, por favor.
ELE (sentado do lado): Sabia que coca-cola derrete os dentes?
EU (olha): Como é que é?
-chega a coca. bebe.
ELE: E também desentope pias.
EU: Seu café não é a escolha mais saudável deste lugar.
ELE: Esse café é de uso terapêutico.
EU: Minha coca é recreativa.
-termina de beber, paga e sai.
ELE: É muito feio sair sem se despedir.
EU: Você não se cansa disso?
ELE: Ser irresistivelmente cativante?
-pausa-
EU: Juro que se estivesse com tempo a gente passaria a tarde toda enumerando minhas impressões sobre você, mas preciso ir.
ELE: Tão cedo para um adeus.
EU: Seu lirismo é notável, mas não me convence às três da tarde.
ELE: E o que é preciso? Meia luz, meia garrafa de um vinho meio caro, meia música de um artista meio conhecido?
EU: Nem tanto. É só deixar a porta meio aberta.
-ônibus vindo-
EU: É com este que eu vou. (estende a mão) Aqui está o que veio buscar: até logo.
ELE: Não é bom começar algo já se despedindo.
EU: E quem disse que estamos começando algo?
ELE: E não?
-olhares, ônibus, partida-

Breviações


EU: Engraçado a gente se encontrar assim, depois desse tempo.
ELE: Pois é. Fez um ano né?
EU: Faz. Fará. Está fazendo de certa forma.
ELE: Passou depressa.
EU: Pra você deve ter passado.
ELE: Passeando?
EU: Trabalho. Eu vim pra...
ELE: ... pra Feira, é verdade.
EU: Eu ainda não consigo saber o que eu realmente estou sentindo agora que estamos perto de novo. Eu não guardei uma imagem sua, clara, sabe? É só uma lembrança mesmo. Ironicamente nesta mesma estação, por duas vezes. Você parado naquele pilar olhando distraído para quem passava e eu morrendo de medo de não encontrar você lá por causa do atraso.
ELE: Achei que fosse pela falta dos óculos.
EU: Também. Mas "no meio de tanta gente eu encontrei você".
ELE: E a outra?
...
EU: A outra foi bem diferente. Foi um abraço, um agradecimento, uma formalidade e logo uma catraca estava nos separando. E eu sabia que não era para olhar pra trás, ou correr e pular o obstáculo e te abraçar de novo. Provavelmente você não estaria lá.
ELE: Você não conseguiria chegar até mim. Os seguranças iam te pegar.
EU: Eu sei. Foi uma sugestão fantasiosa.
ELE: Tenho certeza que vai encontrar uma pessoa legal.
EU: Não preciso encontrar mais ninguém porque já achei pessoas legais um pouco demais. Dessa vez alguém legal precisa me achar, pra variar.
ELE: Boa sorte.
EU: Não se trata de sorte.
ELE: Cada um usa o nome que melhor satisfaz a vontade.
EU: Até mais.
ELE: Bom dia.

Breviações


Diálogo de um encontro recente...

ELE: Você demorou mais do que disse que ia demorar.
EU: Demorei dez minutos e meio?
ELE: Um pouco mais que isso.
EU: Não deve ter passado de onze minutos.
ELE: Quer tomar alguma coisa?
EU: E comer.
...
ELE: Você é bonito.
EU: Obrigado. Você também é bonito.
ELE: Não precisa falar só porque eu disse.
EU: Não tenho o hábito de dizer elogios à toa.
ELE: Mas só falou porque eu falei. Podia ter falado antes.
EU: Você também.
(se olham)
ELE: Você tem o nariz bem feitinho, o queixo bem feitinho...
EU: Tá me deixando sem graça.
ELE: Mas é mais magro do que eu achei.
EU: Você tinha visto minha foto, sabia que eu era magro.
ELE: É... mas não achava que era tanto.
EU: Tá fazendo minha magreza parecer um problema.
ELE: Tá tudo bem... Tanta gente querendo ficar magro assim né...
(se olham)
EU: Que perfume você usa?
ELE: Dolce & Gabanna. Gostou?
EU: Bastante.
ELE: Quando você for lá em casa eu jogo um pouco em você.
EU: Pode deixar que eu vou sim.
ELE: Tá duvidando?
EU: Não. Quero mesmo esse cheiro.
ELE: Tá escurecendo e eu acho que já vou.
EU: Tudo bem. Eu vou também.
ELE: Me liga qualquer hora pra gente marcar alguma coisa.
EU: Sim eu ligo.

Folhetim Breviações


ELE: Por que é que você é assim, inacessível?
EU: Eu não sou assim, inacessível.
ELE: Mas prefere mostrar que sim.
EU: Sabe, é que eu já ofereci meus sonhos tantas vezes para quem só queria meu corpo, que aprendi a ter um pouco de resguardo.
ELE: Mas assim você deixa muita coisa passar sem se dar conta.
EU: Desse jeito não tenho que me preocupar com decepções.
ELE: E pode afastar as boas intenções.
EU: Todo mundo está cheio de boas intenções, mas no momento de colocá-las em prática, preferem não usá-las.
ELE: É disso que estou falando.
EU: Do quê?
ELE: Você está ficando igual a um deles. Amargo, fechado.
EU: Não é bem assim. Eu só gosto de ter um pouco de segurança por onde estou pisando.
ELE: Não se pode misturar sentimentos e racionalidade. Não se pode escolher um momento específico em que você vai gostar de alguém e ter certeza de que é a pessoa certa.
EU: É por isso que você prefere trovas e eu...
ELE (interrompe): ...E você prefere colocar-se como rejeitado.
EU: Não. Eu só prefiro a clareza dos contos realistas.
ELE: Não há nada de errado em deixar um pouco da inocência trovadoresca fazer parte da sua vida.
EU: O problema não está nas trovas, está nos trovadores.
ELE: Será que não vê nada diferente neste?
EU: Vejo, e muito. E é por ver tanta coisa diferente que fico assustado. Até que ponto você é mesmo o que vejo e até que ponto você é só o que desejo?
ELE: Por que eu não seria assim, se até agora esse foi meu comportamento?
EU: Eu não sei! Eu ainda não te conheço.
ELE: Porque não deixa! Mas o que falta? É só perguntar e eu respondo, não vai ser difícil.
EU: Esse não é o tipo de coisa que se descobre sentando num barzinho, entre uma bebida e um cigarro.
ELE: Não é esse o convite que tenho pra você.
EU: Mas você não entende? Tô falando de algo mais... mais... forte, sabe? E isso leva tempo.
ELE: Não precisa passar esse tempo sozinho. Pelo menos não dessa vez.
EU: É que é mais como uma preparação pessoal.
ELE: Não existe isso! Olha pra mim: você sabe o quer e não é tão inocente que não saiba que eu também quero. E não se trata de corpos, porque disso tem muito por aí e, acredite, já experimentei e tive uma quantidade considerável deles. Eu tô falando do intocável, do idealizável, do imutável. É uma troca de vidas, não de fluidos. É deixar eu penetrar essa sua proteção pra que você se desarme pelo menos quando estivermos somente você e eu.
EU: Eu quero muito, mas é essa minha mania de achar que uma coisa boa assim não vai acontecer comigo.
ELE: Deixa que eu aconteça com você. Não fique pensando que não vai dar certo.
EU: É difícil...
ELE: Olhe dessa vez para a parte boa da situação.
EU: Mas até quando vai ser?
ELE: Vai ter a duração que dermos e deixarmos.

(Ele beija Eu)
****************
Prometo que depois vou colocar uma música de fundo. rs...

Orientando no sentido de...


Bom meus queridos leitores, as Breviações estão a todo vapor e vejo que muitos têm gostado e demonstrado certo interesse. Por isso, quero agora contar um pouco delas. Em especial, sobre as breviações de "EU e ELE".

É notável, pelo menos para aqueles que me conhecem ou para quem já tenha falado um pouco comigo, que muita coisa que está lá tem uma alta carga autobiográfica, mas as situações são fictícias. Na verdade, são as situações que eu fico idealizando para mim com uma pessoa idealizada para mim. Não que o personagem EU seja realmente eu, pois estou presente tanto no EU como no ELE. Os dois possuem uma personalidade já estabelecida, que a cada "capítulo" desse folhetim vai sendo evidenciada.

Não possuem nomes estabelecidos porque são personagens gerais, representam um pouco de todo mundo.
Acredito que muitos também já fizeram isso. Encontrar por acaso, num lugar improvável, aquela pessoa que muda tudo, aquela tão esperada. Por quem queremos nos abrir por completo, mas ao mesmo tempo não queremos falar nada e esperar que descubram como somos, o que queremos ouvir. E então o diálogo segue exatamente como o pensado: Eu vou falar assim e ele vai responder desse jeito. Depois ele vai dizer isso e eu faço um comentário engraçado e ele fica me olhando de um jeito...

E é partir dessas minhas vontades e viagens, algumas coisas confesso já aconteceram - pelo menos de forma parecida, que uma nova Breviação surge.
Espero que continuem acompanhando. Logo colocarei aqui a Breviação mais significativa e, espero, real.

Outro!

Breviações...


(Imaginem-se numa loja dessas que vocês normalmente compram suas roupas. Pensem em uma que fique preferencialmente no shopping. EU está de costas, arrumando algumas peças.)

ELE: Tive uma ótima recomendação sobre um vendedor daqui.
EU (virando-se): Mesmo? Bom, e você já conferiu a autenticidade dessa afirmação?
ELE: Ainda estou avaliando.
EU: E faz muito bem, afinal, primeiras impressões nem sempre prevalecem.
ELE: Mas posso dizer que ele é um tanto quanto... misterioso.
EU: Hum... Talvez porque ele goste de se revelar aos poucos. E a poucos.
ELE: Ou goste de testar a resistência dos outros que se interessam em conhecê-lo.
EU: Também pode ser uma forma de atração.
ELE: E como?
EU: Faz com que queiram entendê-lo, insistir até mostrar pra ele que já sabem seus movimentos.
ELE: Ah... mas ele conhece esses truques.
EU: Os comuns e previsíveis, com certeza. No entanto, às vezes ele encontra alguém por quem se deixa descobrir.
ELE: Ele usa frases efusivas demais.
EU: Ele só tem o espírito poeticamente prolixo.
ELE: Por isso prefiro as trovas. São mais objetivas.
EU: Elas falam de um amor impossível...
ELE: Impossível para quem escreveu. Quem sente ignora certas barreiras.
EU: Certas barreiras podem ser mais complicadas. A distância, por exemplo.
ELE: Já somos privilegiados em não morarmos mais em feudos. Atravesso duas quadras, ando alguns passos e posso te encontrar aqui.
EU: Realmente um trovador. Mas trovadores idealizavam uma figura só real pra eles.
ELE: Muito mais vantajoso - nada de concorrência!
(EU sorri)
ELE: Você não pode sair daqui?
EU: Então...
ELE: Não tem hotário de lanche? Vamos comer alguma coisa.
EU: Tá... mas não posso demorar.
ELE: O suficiente pra querer continuar comigo.
EU: Você aposta muito alto.
ELE: Só acho que se é pra arriscar, que seja por algo que acrescente alguma coisa nova pra mim.
EU: Apostas nunca foram meu forte. Perdi a maioria.
ELE: Chega um momento que a sorte muda.
EU: Nem sei se ainda posso jogar.
ELE: Tem que dar oportunidade pra sorte.
EU: Ela costuma ser traiçoeira.
ELE: Ou prazerosa.
EU: Tenho um pouco de medo de ser a cartada final.
ELE: Deixe que eu dê, então. E aí mudamos as regras.
EU: E as conseqüencias?
ELE: Não gosto de pensar nelas de barriga vazia.
EU: Tudo bem, já entendi!
ELE: Da próxima vez trate de aceitar um convite meu mais depressa porque não é sempre que tenho metáforas suficientes para argumentar e contra-razoar.
EU: Ok, trovador!
ELE: Você escolhe.
EU: Capuccino e cigarros!


Breviações (continuando aquele encontro)


ELE (sentado na poltrona do quarto, fumando): Você fica bonito sorrindo enquanto dorme.
EU (deitado): Dormindo... o quê?! (se dá conta) Meu deus! Que horas são?? (levanta e se vestindo) Eu sabia, sabia que não devia ter subido! Tô atrasado! Pronto, vou chegar lá pra assinar minha carta de demissão! No mínimo já deve ser meio dia! Tô ferrado!, pra nao falar outra coisa.
ELE: Calma. Ei! Calma! Ainda é ontem, você dormiu pouco mais de uma hora. E outra coisa, eu não posso ficar até meio dia na cama.
EU: Nossa, que vergonha. Bom, mas de qualquer jeito eu preciso ir embora, antes que eu comece a achar que isso já é parte da minha realidade. (pega as coisas)
ELE: Você podia mudar esse seu jeito de pensar, acho que já comentei.
EU: Que jeito? Prático e realista?
ELE: Neurótico e pessimista. Tem mesmo que ir agora? Bem agora?
EU: Eu só não quero correr o risco de perder outras horas de sono.
ELE: Quer dizer, já é quase de manhã, você termina a noite dormindo aqui, amanhã toma um banho e eu te levo pro shopping.
EU: Eu não posso simplesmente esquecer que eu tenho uma casa e minhas coisas lá...
ELE: Então é isso?
EU: Como assim...?
ELE: Assim... você saindo assim, mecanicamente.
EU: Você não entende? Faz parte do processo pelo qual eu passo a fim de não me sentir mal.
ELE: Por acaso o que aconteceu foi tão ruim que precisa sair correndo?
EU: É justamente o contrário. Eu preciso ir embora agora antes que meu coração inconseqüente resolva agir por vontade própria.
ELE: Eu te levo.
EU: Não. Por favor. Vai ser mais fácil se você ficasse aqui.

(ELE fica. Eu sai.)

Quarentão!!


Em comemoração aos 40 posts, um revival do meu outro blog, a primeira "Breviações".

ELE: Então você vai ficar nesse shopping a noite toda?
EU: Na verdade não. Meu ônibus chega daqui meia hora.
ELE: Certo. Meu carro está a cinqüenta passos daqui.
EU: Hum... e o ponto só a dois, então prefiro ficar por aqui mesmo.
ELE: Que isso, só estou me oferecendo para te acompanhar até sua casa.
EU: Pode me acompanhar sentado no ônibus, se quiser.
ELE: Sabe, eu não gosto muito de andar de ônibus assim.

EU: Minha mãe me ensinou a não pegar carona com estranhos.
ELE: E ela fez muito bem, mas no meu caso é diferente.
EU: É mesmo? E por quê?
ELE: Você já sabe a cor, modelo e marca da cueca que eu uso.
EU: É verdade.
ELE: Viu só?! Isso nos torna praticamente amigos de infância!
EU: Eu não sabia que cuecas meus amigos de infância usavam...
ELE: É só um modo de dizer! Você é literal demais. Vamos, vai economizar grana do ônibus.
EU: Vendo por esse ponto, até que não vai ser tão ruim.
ELE: Ótimo! Meu carro é aquele ali.
EU: Claro... E aposto como está ao lado daquele outro.
ELE: Quanta perspicácia, não? Vou pedir pra ele levantar o braço!
(aciona o alarme)
EU (para si mesmo): Meu deus!
ELE (dentro do carro, abrindo a porta): Entra.
EU: Você sempre faz isso?
ELE: O que? Oferecer carona?
EU: Seduzir as pessoas oferendo carona...
ELE: Não com tanta freqüência. Só pra quem me convence a mudar meu tipo de cueca.
EU: Há! Nem quero arriscar dizer quantos modelos você já usou.
ELE: Você está criando uma imagem errada de mim.
EU: Só tenho a imaginação bastante fértil.
ELE: E perigosa, pelo que estou vendo!
EU: A minha casa não fica pra esse lado...
ELE: Ficaria surpreso se ficasse... Mas a minha fica.
EU: Achei que a carona fosse para onde eu moro.
ELE: Esse é o destino da carona, mas não por enquanto.
EU: É um seqüestro então?
ELE: Imagina! Só quero prolongar um pouco esse, digamos, papo.
EU: Ok, você venceu! Mas tem não posso demorar.
ELE: Já chegamos.
EU: É bem a sua carinha mesmo ir ao shopping de carro pra se exibir.
ELE: Soa tentador, mas não. O carro estava no mecânico.

(Continua...)*