parece, mas não é


Não sei quantas pessoas passaram por tal situação, mas eu vivi neste ano e agora vou falar no sentido de fazer terapia disso...

O tema de hoje é: Pessoas com quem convivemos, mas que não existem.

Tomarei-me como exemplo (sim, eu existo e as pessoas convivem comigo, vou só usar a situação como ilustração).

Em meados de novembro do ano passado comecei a conversar com um certo alguém via msn. No começo de forma bastante prepotente, mas que foi tomando proporsões beirando a realidade. Eu me esforçava para não levar em conta tudo o que ele dizia porque parecia um dos meus diálogos do Breviações, porém não deu muito certo. Nossas conversas duravam horas e era como se não faltasse assunto... piadinhas convenientes, ironias, pontos de vista iguais, senso de humor e estados de humor parecidos, sem contar a parte de gostar de coisas que aparentemente só eu gostava. Resumindo - era um cara desenhado pra mim.
Além de tudo era bonito (É. Sei lá como coloco o tempo verbal aqui), inteligente, morador de São Paulo. Irritante de certa forma por conter tantas características que me atraem.
Apesar de certas provas concretas, eu não estava completamente seguro da veracidade dessa pessoa, enquanto ser vivente mesmo. Um lance meio louco. "Até onde você é real e até onde eu criei o que você é".

Nós nos conhecemos e passamos duas noites realmente maravilhosas - outro motivo para a minha desconfiança. Era essa sensação de estar com alguém não sabendo quem aquela pessoa era. Uma espécie de dejà-vu fictício.

Ou então outro episódio do seriado da minha vida. Dessa vez real. E assim ele foi também uma pessoa real no personagem que desempenhou: o cara certo, num certo momento, com falas pré-determinadas e performance considerável.

Assim que voltei de São Paulo eu não queria admitir, mas sabia que nunca mais o veria pelo simples motivo de aquela pessoa não ter existido. Quer dizer, existiu, mas apenas enquanto durou sua apresentação. Últimas falas, último abraço, cortinas fechadas, fim.

Houve uma tentativa de deixar o personagem vivo por algum tempo, mas não se consegue ser personagem e ter de viver outra vida.

Aquele cara ficou na estação República do metrô, dissolvendo-se entre quem ia e vinha. Sendo absorvido pelos passos dos apressados e desinteressados. Eu tentei deixar minha parte lá também, mas ela foi teimosa e voltou comigo e me faz ter esses rompantes em escrever sobre pessoas que não existem, diálogos imaginados e sentimentos esquecidos.

3 Response to parece, mas não é

  1. Nunca tinha pensado dessa maneira - pessoas com quem convivemos, mas que não existem. Sempre considerei pessoas com que convivemos, mas que mudaram (assim como nós). Talvez no seu caso a inexistência da pessoa seja mais clara.

    Admiro a sua posição, pois eu teria insistido na pessoa que não existe, o que teria levado a decepções, com certeza. Às vezes é bom deixar as coisas no ar, imaginando de quais outras maneiras elas poderiam ter acabado... (porque eventualmente acabariam.. ou não?)

    Comentário confuso, mas gostei do texto, me despertou reflexões.

    beijos

  2. Ana Laura says:

    Eu fico meio perdida porque esse texto me desperta tantos sentimentos...
    Eu não te conheço assim, cem por cento, mas mesmo que você fosse um contato apenas virtual e eu nunca tivesse te visto pessoalmente, não soubesse nada da sua vida, só de te ler eu poderia afirmar que assim como eu, você tende às idealizações.
    Não sei como é pra uma pessoa realista e pé-no-chão se relacionar pela internet com alguém desconhecido, mas pra mim que sou lunática é surreal. Eu sempre evitei esse tipo de envolvimento porque sei que eu vou criar um personagem distinto e me apaixonar pela minha idealização. Na verdade eu nunca tentei começar um relacionamento amoroso via internet, não acredito que possa dar certo comigo. Até pras amizades eu fico com o pé atrás, não adiciono gente estranha e tal, mas depois de conhecer o Eddie, eu comecei a acreditar mais nessa coisa de amizade virtual. Hoje, por ironia do destino, minha amiga mais presente e interada na minha vida, mora no Rio de Janeiro e eu nunca vi sequer uma foto dela. Hahaha! Surreal, não é? Conheci a Raquel através do blog e hoje ela é a minha companhia mais assídua e conto coisas da minha vida com a naturalidade com que contaria pra um amigo de anos. E é recíproco.
    Nem penso em um dia conhecê-la pessoalmente porque talvez eu me decepcione e veja que a personagem que eu criei não existe, também resisti um ano antes de decidir conhecer o Eddie, mas é outra história, não sei se seria igual.

    Internet é um meio de comunicação pela metade, ela cria a falsa impressão de que estamos perto, de que conhecemos pessoas que na verdade são meros fantasmas, espectros da nossa mente.


    Eu amei o texto, admiro a coragem do envolvimento e acho válidas as lembranças que ficaram na sua memória, mesmo que sejam lembranças com ar de sonho ou fantasia.



    Outro.

  3. Ian Japinha says:

    Linda experiência, maravilhosa reflexão, Biel!
    Sinais claros da realidade dura de um lado, mas tão emocionalmente rico de outro.
    Que lhe traga sempre uma boa lembrança, pois uma parte de você ficou lá, tenho certeza!
    Beijo...