Relembrando


Hoje fui convidado para participar de um sarau em dezembro, apresentar um texto meu. Não pensei em nada novo. Acho que levarei este que posto aqui novamente. Desta vez com imagem.

Breviações Biográficas
O elevador parou no 19º. andar. A porta se abriu, eles saíram. O quarto ficava no final de um corredor pouco iluminado, forrado com um carpete azul já muito pisado, talvez por pés que, como os deles, caminhavam lado a lado pela primeira vez.

Esperou para que destrancasse a porta. Entraram. Ele afastou a cortina, abriu a janela, tirou os sapatos, acendeu um cigarro e sentou-se na cama, olhando. O outro olhou a cidade pela janela, sentia-se realmente alto, mas aquela altura que só é alcançada quando alguma coisa realmente boa ou longamente esperada acontece. Serviu-se de coca-cola e também acendeu um cigarro. Seu olhar revezando entre seus próprios pés e os olhos dele. Sorriu. Não sabia, ou melhor, não conseguia dizer quando foi de verdade que começou a acreditar que aquilo tudo estava mesmo acontecendo. O abraço de uma hora atrás, as mãos se tocando timidamente enquanto o táxi seguia, a revelação no elevador: "vocês são namorados?" "sim, nós somos". Mas aquele quarto era sim, real. Assim como eram todos esses fatos e era também a figura daquele homem por quem decidira viajar mais de 400km. Deitaram-se.

Olhava o teto e começou a imaginar quantos outros buscaram aquela cama, quantos deitaram-se nela e acordaram sozinhos e arrependidos, quantos nem chegaram a desarrumar os lençóis esperando pela companhia que não veio. Interrompeu esses pensamentos melancólicos que não combinavam nada com aquilo que estava sentindo. Não queria contaminar e comprometer o clima com tal niilismo antes mesmo de terem sequer tirado a roupa. E então, como se aquela pudesse ser a última vez/chance, virou para o lado e beijou-lhe a boca. "Eu disse que roubaria um beijo" "eu deixei". Ele também virou. Ficaram se encarando de forma tão terna e intensa, que os beijos e abraços seguintes pareciam querer recuperar e recompensar aquele tempo que ficaram separados. Ele 26, o outro 22. E como os braços não bastavam, enlaçaram as pernas. Como os lábios eram pouco, enroscaram as línguas. E juntos nesse corpo que era um, ora ele apertava ora o outro cedia. Que os moralistas não vissem tamanha demonstração de... intimidade!

E como era bom poder sentir os desenhos do corpo dele se revelando à medida que os dedos percorriam nuca, torso, pernas. E os pêlos de todo seu corpo eriçados quando a barba dele resolveu marcar-lhe as costas.

Estava prestes a liberar aquele grito aprisionado que comprimia-lhe as cordas vocais e deixava seu coração arritmado. A pressão das pernas dele entre suas pernas, o suor dele passando pela sua pele, o rubor marcando-lhe a face e aquele estreito vão entre ele e o outro.

E veio impulsionando cada músculo, cada parte de seu corpo extasiado. Ele tapou sua boca abafando o som e beijou o outro até onde permitiu-se alcançar.

Silêncio.

Na cidade que os cercava, algumas luzes ainda acesas. Dois cigarros. A falta de palavras não incomodava, pelo contrário, era melhor pois queria fixar em sua memória, assim como em seu corpo, aquele momento, aquele cheiro, cada detalhe.

Acomodou-se nos braços dele. A noite prosseguia mais calma agora. Era aquela proteção oferecida pelos braços e pelo calor que sentia quando ele respirava que o fizeram adormecer. Só não sabia se teria tempo para acordar.

5 Response to Relembrando

  1. Bonita simbiose de conto e crônica. Já recitar em um sarau...

    Precisa se bem interpretado para não ficar 'no sense'!

    Vá se preparando, se desinibindo desde já e... Sucesso! Abç, Leo PInheiro

  2. Merda amigo.

  3. Lalinha says:

    Amigo, escreve mais disso, essa eu já tinha lido, mas eu adoro suas breviações.


    Quero ler outras.

    Outro.

  4. Ian Japinha says:

    Uma breviação profunda, sincera e tocante... Adorei, Biel!!

  5. ivan says:

    nossa ;')